terça-feira, 8 de abril de 2008

A descoberta de Luiza – parte I

Luiza não era uma mulher bela, não chamava a atenção nem por sua beleza nem por sua feiúra. Passava pelos dias e eles passavam por ela com tamanha indiferença que um não notava o outro.

Os dias tinham se tornado apenas isso: dias.Constantemente cinzas e sem cor.

Olhava-se no espelho religiosamente todas as manhãs. Já não pensava mais, apenas olhava, contemplava a imagem de alguém que ela, com o passar dos anos, não reconhecia. Havia tornado-se um vulto, sem brilho e sem cor.

Porém ninguém podia afirmar que não era feliz, realmente o era. E ela acreditava piamente nisso, que sua vida embora cinza como os dias, estava no tom certo.

Tinha seu futuro inevitavelmente, naturalmente certo. Filhos, cachorro no jardim, geladeira cheia com contas penduradas na porta. Casa limpa, vaso com flores, cheiro de lavanda. Essa seria a sua vida, calma e tranquila. Era uma proposta, agradável, confortável e segura.Não se achava capaz de viver outra coisa.

Só que numa das muitas manhãs da sua monótona vida, Luiza estava como de costume, em frente ao espelho inerte, esperando um instalo para acordar de fato. E nesse dia percebeu algo diferente que não sabia identificar o que era. Estava no olhar. Ou não? Não sabia ao certo Fixou profundamente seus olhos no espelho, e como há muito não fazia, dedicou minutos preciosos da sua atenção a si mesma.Olhou seu corpo, seus seios, os tocou carinhosamente. Em seu rosto analisou todos os seus traços como se estivesse se vendo pela primeira vez.

De repente desviou o olhar assustada. Viu algo que não entendeu. Seus olhos brilhavam como ela há muito não via. Não quis dar atenção. Colocou seus óculos escuros e o problema estava resolvido. Se realmente havia um brilho em seus olhos, iria guarda-lo para si, não tinha a intenção de compartilha-lo com ninguém.

Os dias passaram e ela se sentiu remoçando.Estava diferente. Não passava mais desapercebia e nem seus dias continuavam cinzas. Todos notaram em seus olhos aquele brilho colorido irradiante, apaixonante. Já não havia mais como esconde-lo.

Começou a procurar os velhos discos do Chico e passava os dias cantarolando suas canções. Voltou a ler os livros de poesia que estavam destinados as traças em sua estante.

Sentia um sentimento de imensa compaixão para com a humanidade e chegava a achar-se ridícula por isso.

Toda essa intensidade perdida com os anos estava de volta. Ela não conseguia descobrir o que a trouxe novamente. Simplesmente passou a curtir ter todas essas sensações de novo. Parou de procurar as respostas, era gostoso sentir-se assim.

Continua....

Samanta P. V

08/04/08

Um comentário:

Unknown disse...

Oi, Samanta!

Li no seu blog a recomendação de se assistir o documentário: Muito além do cidadão Keine. Moro no Rio de Janeiro e gostaria que me informasse se esse documentário pode ser encontrado em locadoras de vídeo, por exemplo.Como vc o conseguiu?
Grata pela atenção,
Lidia