sexta-feira, 31 de outubro de 2008
vai passar ..sempre passa
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
- ... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca ...
A personagem está sentada numa escrivaninha. A escrivaninha é muito velha, tem madeira lascada, riscada, manchada de muitas tintas. Falta a gaveta de cima. Pelo vão pode-se ver o que há no interior da segunda gaveta: uma garrafa de Pepsi-Cola vazia e um pedaço de sanduíche de queijo ou/e mortadela. Sobre o tampo, um maço de Hollywood pela metade e muito amassado, uma caixa de fósforos e um pires de cafezinho como cinzeiro. A personagem Lê um livro – de onde não consigo ler o título. A personagem usa tênis brancos (foram brancos), calças de brim azul, desbotado e sujo, um suéter amarelo de lã, esgarçado nos cotovelos. A personagem não olha em volta. Em volta, muitos moças & rapazes com pastas, falando alto (pode-se ouvir, nitidamente, a palavra “dialética”), supõe-se que sejam estudantes. Nas paredes vários cartazes. Num deles, pode-se ler claramente “Cultivar as Almas – ciclo de palestras filosóficas”. Em outro “Você na prévia”. E também: “Pela prática da Liberdade”. Por todos esse detalhes, se supõe que o cenário onde está sentada a personagem seja o diretório do centro acadêmico de alguma faculdade (mas de onde estou não consigo ver claramente). Há uma porta grande de vidro, semi aberta. Lá fora, às vezes chove, às vezes faz sol. Secas e molhadas, as pessoas que entram não param nem falam com a personagem. A personagem está vendendo alguma coisa. De onde estou não consigo ter certeza do que se trata. Mas parecem entradas, dessas para o teatro, cinema, música ou coisa assim. Ninguém pára. Todos falam entre si (pode-se ouvir, nitidamente, a expressão “contradição do sistema”), mas ninguém com a personagem. A personagem pára de ler e olha em volta para ver se está sendo observada. Lentamente. Depois introduz rápida o braço no vão da primeira gaveta (disfarçando com o livro) e, no fundo da segunda, apanha o resto do sanduíche (queijo? Mortadela?). Não vê que eu vejo. Então morde.
Caio Fernando de Abreu
domingo, 17 de agosto de 2008
Um pouco de Caio
...¨mas sabes principalmente,com uma certa misericórdia doce por ti,por todos,que tudo passará um dia,quem sabe tão de repente quanto veio,ou lentamente,não importa.Só não saberás nunca que neste exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva.¨
Natureza Viva,Morangos Mofados
quarta-feira, 2 de julho de 2008
clarice lispector
Medos
A vida me assusta, quanto mais ela me envolve mais tenho ânsia de fugir do que ela me apresenta. Dá vontade de voltar para o feto, de buscar proteção materna, de que de novo me ensinem a dar os primeiros passos, ou que segurem minha mão até eu dormir.
Samanta Piton Vargas
Me sinto
Sei que é somente com duas pernas é que posso andar. Mas, a ausência inútil da terceira perna me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável em mim mesma, e sem sequer precisar me procurar. Estou desorganizada porque perdi o que não precisava?
Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Havia aquela coisa latejante a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa".
Clarice Lispector
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Dama da Noite...
e eu aqui parada, pateta, sentada no bar. Sem fazer nada, como se tivesse desaprendido a linguagem dos outros. A
linguagem que eles usam para se comunicar quando rodam assim e assim por diante nessa roda-gigante. Você tem
um passe para a roda-gigante, uma senha, um código, sei lá. Você fala qualquer coisa tipo bá, por exemplo, então o
cara deixa você entrar, sentar e rodar junto com os outros. Mas eu fico sempre do lado de fora. Aqui parada, sem saber
a palavra certa, sem conseguir adivinhar. Olhando de fora, a cara cheia, louca de vontade de estar lá, rodando junto
com eles nessa roda idiota - tá me entendendo, garotão?
Nada, você não entende nada. Dama da noite. todos me chamam e nem sabem que durmo o dia inteiro. Não suporto:
luz, também nunca tenho nada pra fazer - o quê? Umas rendas aí. É, macetes. Não dou detalhe, adianta insistir. Mutreta,
trambique, muamba. Já falei: não adianta insistir, boy . Aprendi que, se eu der detalhe, você vai sacar que tenho grana
e se eu tenho grana você vai querer foder comigo só porque eu tenho grana. E acontece que eu ainda sou babaca,
pateta e ridícula o suficiente para estar procurando O verdadeiro amor. Pára de rir, senão te jogo já este copo na cara.
Pago o copo, a bebida. Pago o estrago e até o bar, se ficar a fim de quebrar tudo. Se eu tô tesuda e você anda duro e
eu precisar de cacete, compro o teu, pago o teu. Quanto custa? Me dil que eu pago. Pago bebida, comida, dormida. E
pago foda também, se for preciso.
Pego, claro que eu pego. Pego sim, pego depois. É grande? Gosto de grande, bem grosso. Agora não. Agora quercì falar
na roda. Essa roda, você não vê, garotão? Está por aí. rodando aqui mesmo. Olha em volta, cara. Bem do teu lado.
Naquela mina ali, de preto, a de cabelo arrepiadinho. Tá bom, eu sei: pelo menos dois terços do bar veste preto e tem
cabelo arrepiadinho, inclusive nós. Sabe que, se há uns dei anos eu pensasse em mim agora aqui sentada com você,
eu não ia acreditar? Preto absorve vibração negativa, eu pensava. O contrário de branco, branco reflete. Mas acho que
essa moçada tá mais a fim mesmo é de absorver, chupar até o fundo do mal - hein? Depois, até posso. Tem problema,
não. Mas não é disso que estou falando agora, meu bem.
Você não gosta? Ah, não me diga, garotinho. Mas se eu pago a bebida, eu digo o que eu quiser, entendeu? Eu digo
meu-bem assim desse jeito, do jeito que eu bem entender. Digo e repito: meu-bem-meu-bem-meu-bem. Pego no seu
queixo a hora que eu quiser também, enquanto digo e repito e redigo meu-bem-meu-bem. Queixo furadinho, hein? Já
observei que homem de queixo furadinho gosta mesmo é de dar o rabo. Você já deu o seu? Pelo amor de Deus, não
me venha com aquela história tipo sabe, uma noite, na casa de um pessoal em Boiçucanga, tive que dormir na mesma
cama com um carinha que.
Todo machinho da sua idade tem loucura por dar o rabo, meu bem. Ascendente Câncer, eu sei: cara de lua, bunda
gordinha e cu aceso. Não é vergonha nenhuma: tá nos astros, boy. Ou então é veado mesmo, e tudo bem.
Levanta não, te pago outra vodca, quer? Só pra deixar eu falar mais na roda. Você é muito garoto, não entende dessas
coisas. Deixa a vida te lavrar a cara, antes, então a gente. Bicho, esquisito: eu ia dizer alma, sabia? Quer que eu diga?
Tá bom, se você faz tanta questão, posso dizer. Será que ainda consigo, como é que era mesmo? Assim: deixa a
vida te lavrar a alma, antes, então a gente conversa. Deixa você passar dos trinta, trinta e cinco, ir chegando nos
quarenta e não casar e nem ter esses monstros que eles chamam de filhos, casa própria nem porra nenhuma. Acordar no
meio da tarde, de ressaca, olhar sua cara arrebentada no espelho. Sozinho em casa, sozinho na cidade, sozinho no
mundo. Vai doer tanto, menino. Ai como eu queria tanto agora ter uma alma portuguesa para te aconchegar ao meu
seio e te poupar essas futuras dores dilaceradas. Como queria tanto saber poder te avisar: vai pelo caminho da
esquerda, boy, que pelo da direita tem lobo mau e solidão medonha.
A roda? Não sei se é você que escolhe, não. Olha bem pra mim - tenho cara de quem escolheu alguma coisa na vida?
Quando dei por mim, todo mundo já tinha decorado a tal palavrinha-chave e tava a mil, seu lugarzinho seguro, rodando
na roda. Menos eu, menos eu. Quem roda na roda fica contente. Quem não roda se fode. Que nem eu, você acha que
eu pareço muito fodida? Um pouco eu sei que sim, mas fala a verdade: muito? Falso, eu tenho uns amigos, sim. Fodidos
que nem eu. Prefiro não andar com eles, me fazem mal. Gente da minha idade, mesmo tipo de. Ia dizer problema, puro
hábito: não tem problema. Você sabe, um saco. Que nem espelho: eu olho pra cara fodida deles e tá lá escrita
escarrada a minha própria cara fodida também, igualzinha à cara deles. Alguns rodam na roda, mas rodam fodidamente.
Não rodam que nem você. Você é tão inocente, tão idiotinha com essa camisinha Mr. Wonderful. Inocente porque nem
sabe que é inocente. Nem eles, meus amigos fodidos, sabem que não são mais. Tem umas coisas que a gente vai
deixando, vai deixando, vai deixando de ser e nem percebe. Quando viu, babau, já não é mais. Mocidade é isso aí,
sabia? Sabe nada: você roda na roda também, quer uma prova? Todo esse pessoal da preto e cabelo arrepiadinho
sorri pra você porque você é igual a eles. Se pintar uma festa, te dão um toque, mesmo sem te conhecer. Isso é rodar
na roda, meu bem.
Pra mim, não. Nenhum sorriso. Cumplicidade zero. Eu não sou igual a eles, eles sabem disso. Dama da noite, eles
falam, eu sei. Quando não falam coisa mais escrota, porque dama da noite é até bonito, eu acho. Aquela flor de cheiro
enjoativo que só cheira de noite, sabe qual? Sabe porra: você nasceu dentro de um apartamento, vendo tevê.
Não sabe nada. fora essas coisas de vídeo, performance, high-tech, punk, dark. computador, heavy-metal e o caralho.
Sabia que eu até vezenquando tenho mais pena de você e desses arrepiadinhos de preto do que de mim e daqueles
meus amigos fodidos? A gente teve uma hora que parecia que ia dar certo. Ia dar, ia dar. sabe quando vai dar? Pra
vocês, nem isso. A gente teve a ilusão, mas vocês chegaram depois que mataram a ilusão da gente. Tava tudo morto
quando você nasceu, boy, e eu já era puta velha. Então eu tenho pena. Acho que sou melhor, sei porque peguei a
coisa viva. Tá bom, desculpa, gatinho. Melhor, melhor não. Eu tive mais sorte, foi isso? Eu cheguei antes. E até me
pergunto se não é sorte também estar do lado de fora dessa roda besta que roda sem fim, sem mim. No fundo, tenho
nojo dela - você?
Você não viu nada, você nem viu o amor. Que idade você tem, vinte? Tem cara de doze. Já nasceu de camisinha
em punho, morrendo de medo de pegar Aids. Vírus que mata. neguinho, vírus do amor. Deu a bundinha, comeu cuzinho.
pronto: paranóia total. Semana seguinte, nasce uma espinha na cara e salve-se quem puder: baixou Emílio Ribas.
Caganeira, tosse seca, gânglios generalizados.
Õ boy, que grande merda fizeram com a tua cabecinha, hein? Você nem beija na boca sem morrer de cagaço. Transmite
pela saliva, você leu em algum lugar. Você nem passa a mão em peito molhado sem ficar de cu na mão. Transmite
pelo suor, você leu em algum lugar. Supondo que você lê, claro. Conta pra tia: você lê, meu bem? Nada, você não
lê nada. Você vê pela tevê, eu sei. Mas na tevê também dá, o tempo todo: amor mata amor mata amor mata.
Pega até de ficar do lado, beber do mesmo copo. Já pensou se eu tivesse? Eu, que já dei pra meia cidade e ainda
por cima adoro veado.
Eu sou a dama da noite que vai te contaminar com seu perfume venenoso e mortal. Eu sou a flor carnívora e noturna
que vai te entontecer e te arrastar para o fundo de seu jardim pestilento. Eu sou a dama maldita que, sem nenhuma
piedade, vai te poluir com todos os líquidos, contaminar teu sangue com todos os vírus. Cuidado comigo: eu sou a dama
que mata, boy. Já chupou buceta de mulher? Claro que não, eu sei: pode matar. Nem caralho de homem: pode matar.
Já sentiu aquele cheiro molhado que as pessoas têm nas virilhas quando tiram a roupa? Está escrito na sua cara,
tudo que você não viu nem fez está escrito nessa sua cara que já nasceu de máscara pregada. Você já nasceu
proibido de tocar no corpo do outro. Punheta pode, eu sei, mas essa sede de outro corpo é que nos deixa loucos e vai
matando a gente aos pouquinhos. Você não conhece esse gosto que é o gosto que faz com que a gente fique fora da
roda que roda e roda e que se foda rodando sem parar, porque o rodar dela é o rodar de quem consegue fingir que não
viu o que viu. O boy, esse mundo sujo todo pesando em cima de você, muito mais do que de mim e eu ainda nem
comecei a falar na morte...
Já viu gente morta, boy? É feio, boy. A morte é muito feia, muito suja, muito triste. Queria eu tanto ser assim delicada e
poderosa, para te conceder a vida eterna. Queria ser uma dama nobre e rica para te encerrar na torre do meu castelo e
poupar você desse encontro inevitável com a morte. Cara a cara com ela, você já esteve? Eu, sim, tantas vezes. Eu
sou curtida, meu bem. A gente lê na sua cara que nunca. Esse furinho de veado no queixo, esse olhinho verde me
olhando assim que nem eu fosse a Isabella Rossellini levando porrada e gostando e pedindo eat me eat me, escrota e
deslumbrante. Essa tontura que você está sentindo não é porre, não. É vertigem do pecado, meu bem, tontura do
veneno. O que que você vai contar amanhã na escola, hein? Sim, porque vocé ainda deve ir à escola, de lancheira e
tudo. Já sei: conheci uma mina meio coroa, porra-louca demais. Cretino, cretino, pobre anjo cretino do fim de todas as
coisas. Esse caralhinho gostoso aí, escondido no meio das asas, é só isso que você tem por enquanto. Um caralhinho
gostoso, sem marca nenhuma. Todo rosadinho. E burro. Porque nem brochar você deve ter brochado ainda. Acorda de
pau duro, uma tábua, tem tesão por tudo, até por fechadura. Quantas por dia? Muito bem, parabéns: você tá na
idade. Mas anota aí pro teu futuro cair na real: essa sede, ninguém mata. Sexo é na cabeça: você não consegue nunca.
Sexo é só na imaginação. Você goza com aquilo que imagina que te dá o gozo, não com uma pessoa real, entendeu?
Você goza sempre com o que tá na sua cabeça, não com quem tá na cama. Sexo é mentira, sexo é loucura, sexo é
sozinho, boy.
Eu, cansei. Já não estou mais na idade. Quantos? Ah, você não vai acreditar, esquece. O que importa é que você
entra por um ouvido meu e sai pelo outro, sabia? Você não fica. você não marca. Eu sei que fico em você, eu sei que
marco você. Marco fundo. Eu sei que, daqui a um tempo, quando você estiver rodando na roda, vai lembrar que, uma
noite. sentou ao lado de uma mina louca que te disse coisas, que te falou no sexo, na solidão, na morte. Feia, tão feia a
morte, boy. A pessoa fica meio verde, sabe? Da cor quase assim desse molho de espinafre frio. Mais clarinho um
pouco, mas isso nem é o pior. Tem uma coisa que já não está mais ali, isso é o mais triste. Você olha, olha e olha e
o corpo fica assim que nem uma cadeira.
Uma mesa, um cinzeiro, um prato vazio. Uma coisa sem nada dentro. Que nem casca de amendoim jogada na areia, é
assim que a gente fica quando morre, viu, boy? E você, já descobriu que um dia também vai morrer?
Dou, claro. Ficou nervosinho, quer cigarro? Mas nem fumar você fuma, o quê? Compreendo, compreendo sim, eu
compreendo sempre, sou uma mulher muito compreensiva. Sou tão maravilhosamente compreensiva e tudo que, se
levar você pra minha cama agora e amanhã de manhã você tiver me roubado toda a grana, não pense que vou achar
você um filho da puta. Não é o máximo da compreensão? Eu vou achar que você tá na sua, um garotinho roubando
uma mulher meio pirada, meio coroa, que mexeu com sua cabecinha de anjo cretino desse nojento fim de todas as
coisas. Tá tudo bem, é assim que as coisas são: ca-pi-ta-lis-tas, em letras góticas de neon. Mulher pirada e meio coroa
que nem eu tem mais é que ser roubada por um garotinho ïmbecil e tesudinho como você. Só pra deixar de ser burra
caindo outra vez nessa armadilha de sexo.
Fissura, estou ficando tonta. Essa roda girando girando sem parar. Olha bem: quem roda nela? As mocinhas que
querem casar, os mocinhos a fim de grana pra comprar um carro, os executivozinhos a fim de poder e dólares, os casais
de saco cheio um do outro, mas segurando umas. Estar fora da roda é não segurar nenhuma, não querer nada. Feito
eu: não seguro picas, não quero ninguém. Nem você. Quero não, boy. Se eu quiser, posso ter. Afinal, trata-se apenas
de um cheque a menos no talão, mais barato que um par de sapatos. Mas eu quero mais é aquilo que não posso
comprar. Nem é você que eu espero, já te falei. Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem
avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa
de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é
de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho,
pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. É por ele que eu venho aqui,
boy, quase toda noite. Não por você, por outros ecmo você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada,
bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor. Cuidado, comigo: um dia
encontro.
Só por ele, por esse que ainda não veio, te deixo essa grana agora, precisa troco não, pego a minha bolsa e dou a fora
já. Está quase amanhecendo, boy. As damas da noite recolhem seu perfume com a luz do dia. Na sombra, sozinhas.
envenenam a si próprias com loucas fantasias. Divida essa sua juventude estúpida com a gatinha ali do lado, meu bem.
Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo
daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Parada pateta ridícula porra-louca solitária
venenosa. Pós-tudo, sabe como? Darkérrima, modernésima, puro simulacro.
Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra
vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada.
(Extraído do livro Os Dragões Não Conhecem o Para
sábado, 14 de junho de 2008
Apenas palavras ao leo...
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Caio F. Abreu
Caio Fernando de Abreu
:*
"E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar".
sábado, 7 de junho de 2008
segunda-feira, 19 de maio de 2008
vagando...
Samanta Piton Vargas - abril/2008
segunda-feira, 5 de maio de 2008
continuação Meio silêncio....
Eu disse: a lua está tão bonita que me dói por dentro. Ele não entendeu. É tudo tão bonito que me dói e pesa. Fico pensando que nunca mais vai se repetir, é só uma vez, a única, e vai me magoar sempre. Não sei, não quero pensar.Neste espaço branco de madrugada e lua cheia, preciso falar emais que falar preciso dizer. Mas as palavras não dizem tudo, não dizem nada. O momento me esmaga por dentro. o espantp esbarra em paredes pedindo exteriorização....
... Nesse segundo cheio de riso alguma coisa se adensa. Nossos pés pisam em pedras. Mas por cima dos sapatos,sinto que são frias e duras, e sei que seu siginificado está em nós, não nelas. Uma vontade que a manha não venha nunca. Vai voltar grande busca. As noites vazias. Amargura de estar esperando. Repetir mil vezes: não quero esperar. e a certeza de que esse não querer já trz implicitas as longas caminhadas, o olhar devassando os bares, a nausea, os olhares alheios, a procura, a procura: seus ombros largos, um jeito de quem pisa mesmo em luas, não em pedras.
"Um menino assustado querendo mascarar o medo com a agressividade. Um menino. Curvo-me para ele. Tão esguio que meus braços o rodeariam por completo. Por um instante ele ficaria inteiro preso dentro dos meus limites."
O rosto dele próximo do meu. Mais adivinho do que vejo o verde dos olhos deslizando pelas órbitas. A sua mão toca no meu ombro, sobe pelo pescoço, me alcança a face, brinca com a orelha, alcança os cabelos. O seu corpo cola-se ao meu. A sua boca vem baixando devagar, vencendo barreiras, colando-se à minha, de leve, tão de leve que receio um movimento, um suspiro, um gesto, mesmo um pensamento. Estou em branco como a noite. Ele me abraça. Ele está perto.
Ergue o braço lentamente, afunda as mãos nos cabelos de outro. E de súbito um vento mais frio os faz encolherem-se juntos, unidos no mesmo abraço, na mesma espera desfeita, no mesmo medo. Na mesma margem.
domingo, 4 de maio de 2008
Olho..reflito....penso...falo....
Esquadros
Composição: Adriana Calcanhoto
Eu ando pelo mundo prestando atençãoEm cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca,
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome nos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto para quem?
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
sábado, 3 de maio de 2008
Meio Silêncio....
Fragmento do conto Meio Silêncio de Caio Fernando Abreu
domingo, 27 de abril de 2008
a medida do meu coração
"Dizer que não foi bom pra mim
Fingir que não aconteceu
Querer que o tempo volte atrás
Por ti ou por qualquer razão
São coisas que jamais farei
Não cabem na medida do meu coração
Um dia o sol esclareceu
Que a vida é mais que essa paixão
Sorri ao tempo, me falou
Seu amanhã já começou
Eu visto as notas da canção
Com versos na medida do meu coração
Saudade, é claro, todo mundo sente
Não pode é ser maior do que a gente é
Tinjo a imensidão
Com tintas na medida do meu caro coração
Voltar para o mesmo lugar
É impossível, irreal
Viver é qual o correr de um rio
Jamais retorna
Achei o que é melhor pra mim
E o tempo já me deu seu sim
E meu samba-canção
Revela a medida do meu coração"
quarta-feira, 23 de abril de 2008
olhar...
eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora
quem está por fora
não segura
um olhar que demora
de dentro do meu centro
este poema me olha
Drummond
mas estou cheio de escravos, minha lembranças escorrem
e o corpo transige na confluencia do amor.
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele nem cabe as minha dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais,
me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Simples coisa nenhuma....
Amor
Secos & Molhados
Composição: João Ricardo - João Apolinário
Leve como leve pluma.
Muito leve, leve pousa.
Muito leve, leve pousa.
Ah, simples e suave coisa.
Suave coisa nenhuma.
Suave coisa nenhuma
Sombra silêncio ou espuma.
Nuvem azul
Que arrefece.
Simples e suave coisa.
Suave coisa nenhuma.
Que em mim amadurece
mar revolto...............
Angústia
Secos & Molhados
Composição: João Ricardo - João Apolinário
Agonizo se tento
Retomar a origem das coisas
Sinto-me dentro delas e fujo
Salto para o meio da vida
Como uma navalha no ar
Que se espeta no chão
Não posso ficar colado
A natureza como uma estampa
E representá-la no desenho
Que dela faço
Não posso
Em mim nada está como é
Tudo é um tremendo esforço de ser
Civilidade
Fobia social
Talvez tenha pirado na batatinha,ainda não consegui descobrir.Mas tudo que quero neste momento é distancia de pessoas...gente...homem..mulher...qualquer forma humana que se diz pensante.Gente pensa demais e age de menos. Pensa o que queria falar e fala o que não nem se quer pensa. Mente, engana,ri querendo chorar e chora pra impressionar.Chega de hipocrisias,quero férias de nós mesmos,um tempo longe desta parafernália digital que inventamos e sem a qual não conseguimos mais viver.
Queria passar uns dias no campo,longe desta massa poluída e fria onde passamos nossos dias.Quero ar puro,respirar ...respirar..respirar...Tô cansada de teorias,de papos intelectualóides que levam do nada para o nada,a não ser o próprio crescimento individual .Daqueles que se itulizam de ideais para desmosntrar sua capacidade intelectual.Seres que defendem o fim disso e daquilo,muito bem embazados, é claro,com um arsenal de filósofos e sociólogos da mais alta elite da teoria da qual defendem.Mas na verdade seus discursos de "salvar o mundo",não passam de um ensaio para suas futuras teses de mestrado.
Talvez , na verdade esteja me tornando uma "reaca", como muitos diriam,mas infelizmente essa é a visão que tenho do mundo onde vivo.
Achei isso hj vasculhando meu msn, nem lembrava que havia escrito. Foi escrito no dia 14/07/04 e parando pra pensar como ainda tá atual....
segunda-feira, 21 de abril de 2008
vinho..........................
O NOSSO MUNDO
Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno
Poisando em ti o meu olhar eterno
Como poisam as folhas sobre os lagos...
Os meus sonhos agora são mais vagos
O teu olhar em mim, hoje é mais terno...
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e presságios!
A Vida, meu amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas hemos de bebê-la!
Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...
O mundo, Amor!...As nossas bocas juntas!...
Florbela Espanca
sonetos
|
|
| Por que me descobriste no abandono |
Chico Buarque
domingo, 13 de abril de 2008
mais
Assim eu vejo a vida
A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.
Nasci dura, heróica, solitária e em pé. E encontrei meu contraponto na paisagem sem pitoresco e sem beleza. A feiúra é o meu estandarte de guerra. Eu amo o feio com um amor de igual para igual. E desafio a morte. Eu - eu sou a minha própria morte. E ninguém vai mais longe. O que há de bárbaro em mim procura o bárbaro e cruel fora de mim. Vejo em claros e escuros os rostos das pessoas que vacilam às chamas da fogueira. Sou uma árvore que arde com duro prazer. Só uma doçura me possui: a conivência com o mundo. Eu amo a minha cruz, a que doloridamente carrego. É o mínimo que posso fazer de minha vida: aceitar comiseravelmente o sacrifício da noite.
Clarice Lispector
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Agora por inteiro, sem fragmentos.
O Tempo que não se perdeu
Não se contam as ilusões
nem as compreensões amargas,
não há medida para contar
o que não podia acontecer-nos,
o que nos rondou como besouro
sem que tivéssemos percebido
do que estávamos perdendo.
Perder até perder a vida
é viver a vida e a morte
não são coisas passageiras
mas sim constantes, evidentes,
a continuidade do vazio,
o silêncio em que cai tudo
e por fim nós mesmos caímos.
Ai! o que esteve tão cerca
sem que pudéssemos saber.
Ai! o que não podia ser
quando talvez podia ser.
Tantas asas circunvoaram
as montanhas da tristeza
e tantas rodas sacudiram
a estrada do destino
que já não há nada a perder.
Terminaram-se os lamentos.
Neruda
terça-feira, 8 de abril de 2008
A descoberta de Luiza – parte I
Luiza não era uma mulher bela, não chamava a atenção nem por sua beleza nem por sua feiúra. Passava pelos dias e eles passavam por ela com tamanha indiferença que um não notava o outro.
Os dias tinham se tornado apenas isso: dias.Constantemente cinzas e sem cor.
Olhava-se no espelho religiosamente todas as manhãs. Já não pensava mais, apenas olhava, contemplava a imagem de alguém que ela, com o passar dos anos, não reconhecia. Havia tornado-se um vulto, sem brilho e sem cor.
Porém ninguém podia afirmar que não era feliz, realmente o era. E ela acreditava piamente nisso, que sua vida embora cinza como os dias, estava no tom certo.
Tinha seu futuro inevitavelmente, naturalmente certo. Filhos, cachorro no jardim, geladeira cheia com contas penduradas na porta. Casa limpa, vaso com flores, cheiro de lavanda. Essa seria a sua vida, calma e tranquila. Era uma proposta, agradável, confortável e segura.Não se achava capaz de viver outra coisa.
Só que numa das muitas manhãs da sua monótona vida, Luiza estava como de costume, em frente ao espelho inerte, esperando um instalo para acordar de fato. E nesse dia percebeu algo diferente que não sabia identificar o que era. Estava no olhar. Ou não? Não sabia ao certo Fixou profundamente seus olhos no espelho, e como há muito não fazia, dedicou minutos preciosos da sua atenção a si mesma.Olhou seu corpo, seus seios, os tocou carinhosamente. Em seu rosto analisou todos os seus traços como se estivesse se vendo pela primeira vez.
De repente desviou o olhar assustada. Viu algo que não entendeu. Seus olhos brilhavam como ela há muito não via. Não quis dar atenção. Colocou seus óculos escuros e o problema estava resolvido. Se realmente havia um brilho em seus olhos, iria guarda-lo para si, não tinha a intenção de compartilha-lo com ninguém.
Os dias passaram e ela se sentiu remoçando.Estava diferente. Não passava mais desapercebia e nem seus dias continuavam cinzas. Todos notaram em seus olhos aquele brilho colorido irradiante, apaixonante. Já não havia mais como esconde-lo.
Começou a procurar os velhos discos do Chico e passava os dias cantarolando suas canções. Voltou a ler os livros de poesia que estavam destinados as traças em sua estante.
Sentia um sentimento de imensa compaixão para com a humanidade e chegava a achar-se ridícula por isso.
Toda essa intensidade perdida com os anos estava de volta. Ela não conseguia descobrir o que a trouxe novamente. Simplesmente passou a curtir ter todas essas sensações de novo. Parou de procurar as respostas, era gostoso sentir-se assim.
Continua....
Samanta P. V
08/04/08
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Incertezas....
E se tudo fosse uma mentira?
E se nada de bom restar na lembrança?
E se a dor não se dissipar?
E se os sonhos não se realizarem?
E se o portal se fechar?
domingo, 6 de abril de 2008
Neruda..........
Integrações - Pablo Neruda
Depois de tudo te amarei
Como se fosse sempre antes
Como se de tanto esperar
Sem que te visses nem chegasses
Estivesses eternamente
Respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
Teu colorido e tua guitarra
Como estão juntos os países
Nas lições escolares
E duas comarcas se confundem
E há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
E longe de tudo é tua ausência
E é cor de argila a lua
Na noite do terremoto
Quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
Pode marchar com quatro pés
E quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
Que é um anel delicado
Tocamos a areia de ontem
E no mar ensina o amor
Um arrebatamento repetido.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
um poeta...uma idéia....
De quem é o poder?
Cazuza
Composição: Cazuza / George Israel / Nilo Roméro
De quem é?
De quem é?
De quem é o poder?
Quem manda na minha vida?
De quem é?
De quem é?
Uns dizem que ele é de Deus
Outros, do guarda da esquina
Uns dizem que é do presidente
Outros, quem vem lá de cima
De quem é?
De quem é?
Quem inventou essa tara?
Uns dizem que ele é do povo
E saem pra trabalhar
Outros, que é dos muito loucos
Que não têm contas a prestar
Me dê poder e eu te mostro
O mais inteiro dos sonhos
Porque as verdades da vida
São sempre ditas na cama
É do ativo ou do passivo?
De quem é?
De quem é?
Às vezes você me domina
Pensando que eu sou teu dono
Às vezes você me dá nojo
Seguindo feliz o rebanho
Onde vai dar tudo isso?
Prender alguém ou ser preso
Quem é o mais infeliz?
Eu, dando ordem o dia inteiro?
E você, que nem sabe o que diz?
Me dê poder e eu te mostro
O mais inteiro dos sonhos
Porque as verdades da vida
São sempre ditas na cama
quarta-feira, 26 de março de 2008
Há alguém aí?????????.....Alô...Alô
Portanto, quero voltar a utiliza-lo com maior intensidade. No momento não ando com vontade de escrever. Me dá preguiça. Então decidi expor minhas ideias em imagens. Pode-se dizer que ando num momento bem visual em minha vida.
Espero não "ouvir " mais ecos por aqui. Pode entrar dar uma olhada e deixar um oi, só pra eu saber que não estou sozinha.
Estou me sentindo um naufrágo nesta "ilha" digital. Isso até que soa meio paradoxal. Portanto antes que eu enlouqueça e comece a falar com uma bola (n0 meu caso, imaginária) respondam alguma coisa.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
Um pouco de Vinicius...
Vinicius de Moraes
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
15/04/1962
A poesia acima foi extraída do livro "Jardim Noturno - Poemas Inéditos", Companhia das Letras - São Paulo, 1993, pág. 17.
_______________________
Cláudia Cordeiro, professora de Literatura Brasileira no Recife (PE), escreveu ao Releituras para dizer que havia uma outra versão dessa poesia. Foi feita uma pesquisa e localizada, declamada pelo autor, no disco "Vinicius de Moraes - Antologia Poética". Consta no disco que foi publicada no jornal "O Pasquim", não sendo citado o número do exemplar nem a data. Abaixo a versão, que julgo ser a primeira, para que os leitores conheçam.
O Haver
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
- Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo que existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil.
Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa tola capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser
E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante.
E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta essa obstinação em não fugir do labirinto
Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente
E essa coragem indizível diante do grande medo
E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história
Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento
Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável
Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços
E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio
Pelo momento a vir, quando, emocionada
Ela virá me abrir a porta como uma velha amante
Sem saber que é a minha mais nova namorada.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2008
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
pintura ou fotografia ???
Iman Maleki nasceu em 1976 em Teerão. Em 1999 licenciou-se em design gráfico pela universidade da arte de Teerão. Desde 1998, participou em diversos exposições, acabando por ganhar o prémio William Bouguereau( importante prêmio da arte realista)
um pouco de música......
Deixando o Pago
Vitor Ramil
Composição: Vitor Ramil (poema de João da Cunha Vargas)
Alcei a perna no pingo
E saí sem rumo certo
Olhei o pampa deserto
E o céu fincado no chão
Troquei as rédeas de mão
Mudei o pala de braço
E vi a lua no espaço
Clareando todo o rincão
E a trotezito no mais
Fui aumentando a distância
Deixar o rancho da infância
Coberto pela neblina
Nunca pensei que minha sina
Fosse andar longe do pago
E trago na boca o amargo
Dum doce beijo de china
Sempre gostei da morena
É a minha cor predileta
Da carreira em cancha reta
Dum truco numa carona
Dum churrasco de mamona
Na sombra do arvoredo
Onde se oculta o segredo
Num teclado de cordeona
Cruzo a última cancela
Do campo pro corredor
E sinto um perfume de flor
Que brotou na primavera.
À noite, linda que era,
Banhada pelo luar
Tive ganas de chorar
Ao ver meu rancho tapera
Como é linda a liberdade
Sobre o lombo do cavalo
E ouvir o canto do galo
Anunciando a madrugada
Dormir na beira da estrada
Num sono largo e sereno
E ver que o mundo é pequeno
E que a vida não vale nada
O pingo tranqueava largo
Na direção de um bolicho
Onde se ouvia o cochicho
De uma cordeona acordada
Era linda a madrugada
A estrela d’alva saía
No rastro das três marias
Na volta grande da estrada
Era um baile, um casamento
Quem sabe algum batizado
Eu não era convidado
Mas tava ali de cruzada
Bolicho em beira de estrada
Sempre tem um índio vago
Cachaça pra tomar um trago
Carpeta pra uma carteada
Falam muito no destino
Até nem sei se acredito
Eu fui criado solito
Mas sempre bem prevenido
Índio do queixo torcido
Que se amansou na experiência
Eu vou voltar pra querência
Lugar onde fui parido
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Educação Contemporânea
Primeiramente, penso ser importante elucidar o que caracteriza o período contemporâneo, e o fato crucial que os historiadores tem por base utilizar como significativo do que seria a “entrada” em um novo período histórico, é a Revolução Francesa. Em 1789 a França vivenciou uma revolução que serviu de modelo para todas as novas nações ocidentais, no que confere ao âmbito político. Podemos apontar como uma mudança fundamental nas formas de governos após a Revolução Francesa, a gradativa separação entre estado e igreja.
No âmbito econômico no século XVIII, a revolução industrial (manufatura) veio modificar profundamente as relações de trabalho até então existentes. A segunda revolução industrial (maquinofatura),realizada no século XIX, intensificou ainda mais as mudanças ocorridas nas forças produtivas. Foi a desenvolvimento de um novo modo de produção que já estava em gestação desde o século XVI.
Na esteira destes acontecimentos, onde uma nova forma política acompanhada de um novo ciclo econômico, necessitava de uma nova organização social, ou seja, de uma nova concepção de sociedade. Conseqüentemente um novo sistema de ensino, surgirá para responder aos anseios da sociedade que está se formação ante todas estas modificações.
Para suprir estas novas necessidades, a educação ganhou novos conceitos. Tornando-se agora um dever do estado e não obrigação da igreja, sendo assim, torna-se ao mesmo tempo laica, já que agora estado e igreja estão separados.
Levando-se em conta as transformações tanto de ordem tecnológica, fruto da revolução industrial,tanto de ordem do pensamento como o iluminismo, precisou-se reformular o que era ensinado na escola. Aquele método religioso, priorizando a língua latina e culturas da antiguidade, que visava uma formação erudita ,não servia mais a esse período histórico. Fazia-se necessário pensar um currículo que contemplasse uma formação de acordo com as transformações em curso na sociedade. Um sistema de ensino que educasse para o trabalho.E a educação que era oferecida pela estado universal(“para todos”) e gratuita, cumpria essa função.
Neste aspecto de reformulação dos currículos surgiu a figura do pedagogo, como a pessoa que irá pensar o método de ensino e orientar o educador que terá a função apenas de transmissão de conhecimento.
As escolas de caridade que surgiram no período moderno não interessavam mais ao estado, e nem a classe proletária que começa a organizar-se, e questionava a educação que lhes era destinada tanto pelo estado quanto pela igreja. Surgiram experiências de escola voltadas aos ideais anarquistas e socialistas, que eram as referencias teóricas da classe trabalhadora daquele período.
Embora tenha ocorrido toda essa mudança na educação no período contemporânea, onde o estado tomou para si a responsabilidade de oferece-la de forma laica e gratuita abrangendo a todos, podemos nos questionar da eficácia de tal proposta.
Ao meu ver, algumas questões ainda continuam petrificadas como no período moderno. Como por exemplo,a divisão entre escolas particulares - e aqui poderíamos comparar com os colégios religiosos do período moderno - continuam voltadas para a formação de uma elite. Enquanto que as escolas públicas , que na sua maioria estão sucateadas, são destinadas as classes populares. É claro que não temos mais uma rígida separação entre classes sociais como se tinha no período moderno e nem podemos afirmar que as escolas particulares são só destinadas a uma elite. Encontramos nos dias de hoje, escola particulares não tão onerosas e também escolas publicas,embora raras, com qualidade de ensino admirável. A questão que se coloca na verdade é, se a mais de dois séculos a escola tornou-se estatal e universal por conseqüência, por que ainda hoje não podemos confiar nos seus serviços quando pensamos em qualidade de ensino ? Por que as elites, e até mesmo aos menos favorecidos (quando podem) preferem a escola privada ,que na sua maioria , continuam tendo um viés religioso? Por que essa inversão ´só ocorre no nível superior onde , é estatisticamente comprovado que as pessoas com melhores condições estão na “universidade PUBLICA e de qualidade”, enquanto os menos favorecidos estão pagando mensalidades nas universidades particulares ?
Penso que talvez esse meus questionamentos sejam prova, de que o sistema de ensino brasileiro em muito precisa e deve ser melhorado. Penso também que o primeiro passo já esta sendo dado, na medida em que estamos pensando sobre suas falhas e acertos. Convém agora continuar permanentemente esse processo de reflexão, unindo à ação seja enquanto educadores, legisladores , pensadores do ensino e mesmo enquanto cidadãos para dar continuidade no trabalho e mudança no que diz respeito aos rumos da educação.
este texto é um fragmento de um trabalho desenvolvido na disciplina de História da Educação - UFRGS 2007/02 - Samanta Piton Vargas



