segunda-feira, 19 de maio de 2008

vagando...

Caminho sozinha, retornando. Não sei para onde, não sei para quem. Brinco de não pisar nas divisas da calçada, assim parece que o percurso fica menos tenso. Pelas ruas, alguns resistentes ainda buscando o último gole na garrafa vazia. Um casal encostado na porta de um sobrado, beijam-se incessantemente, parecendo não se importarem com o mundo ao seu redor.
O ar frio da madrugada me resseca as narinas. Sinto minhas mãos encarangadas, fecho meu casaco até o pescoço. Penso em acender um cigarro para me aquecer. Procuro na bolsa, acho o maço já amassado, e a triste constatação: o último remanescente da noite, já meio torto como eu. Não encontro meu isqueiro, mais um que perdi.
A agonia para dar logo uma tragada, faz eu acelerar o passo, e procuro numa espécie de visão de raio x a imagem de outra chama para saciar logo meu vício.


Samanta Piton Vargas - abril/2008

segunda-feira, 5 de maio de 2008

continuação Meio silêncio....

Um menino. Aquele ar espantado. Um pouco trêmulo. Cigarro atrás de cigarro. Tenho medo de tocá-lo. De quebrá-lo.

Eu disse: a lua está tão bonita que me dói por dentro. Ele não entendeu. É tudo tão bonito que me dói e pesa. Fico pensando que nunca mais vai se repetir, é só uma vez, a única, e vai me magoar sempre. Não sei, não quero pensar.Neste espaço branco de madrugada e lua cheia, preciso falar emais que falar preciso dizer. Mas as palavras não dizem tudo, não dizem nada. O momento me esmaga por dentro. o espantp esbarra em paredes pedindo exteriorização....
... Nesse segundo cheio de riso alguma coisa se adensa. Nossos pés pisam em pedras. Mas por cima dos sapatos,sinto que são frias e duras, e sei que seu siginificado está em nós, não nelas. Uma vontade que a manha não venha nunca. Vai voltar grande busca. As noites vazias. Amargura de estar esperando. Repetir mil vezes: não quero esperar. e a certeza de que esse não querer já trz implicitas as longas caminhadas, o olhar devassando os bares, a nausea, os olhares alheios, a procura, a procura: seus ombros largos, um jeito de quem pisa mesmo em luas, não em pedras.

"Um menino assustado querendo mascarar o medo com a agressividade. Um menino. Curvo-me para ele. Tão esguio que meus braços o rodeariam por completo. Por um instante ele ficaria inteiro preso dentro dos meus limites."

O rosto dele próximo do meu. Mais adivinho do que vejo o verde dos olhos deslizando pelas órbitas. A sua mão toca no meu ombro, sobe pelo pescoço, me alcança a face, brinca com a orelha, alcança os cabelos. O seu corpo cola-se ao meu. A sua boca vem baixando devagar, vencendo barreiras, colando-se à minha, de leve, tão de leve que receio um movimento, um suspiro, um gesto, mesmo um pensamento. Estou em branco como a noite. Ele me abraça. Ele está perto.

Ergue o braço lentamente, afunda as mãos nos cabelos de outro. E de súbito um vento mais frio os faz encolherem-se juntos, unidos no mesmo abraço, na mesma espera desfeita, no mesmo medo. Na mesma margem.

domingo, 4 de maio de 2008

Olho..reflito....penso...falo....

Esquadros


Composição: Adriana Calcanhoto

Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca,
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome nos meninos que têm fome

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto para quem?

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle

sábado, 3 de maio de 2008

Meio Silêncio....

Desconhecidos: como isso é, a um só tempo, terrivelmente bom e terrivelmente assustador. Pensar que eu estava só, no bar, esperando nem sei que, nem sei se quer se esperando: de repente os olhos me buscando no balcão em frente. Verdes. No primeiro momento foi a única cisa que percebi. Verdes, os olhos, atrás da fumaça, no meio das gentes, na frente do espelho. E o espelho refletindo 0 meu espanto. Depois vi os cabelos, a boca, os ombros. Mas era no olhos, só nos olhos, que se fixava aquele mudo apelo, aquele grito. Nem sei. Aquela clara maldição. Saí,saiu. Não dissemos nada. Eu só tenho esperas. Ele traz a tranquilidade de mais nada esperar.

Fragmento do conto Meio Silêncio de Caio Fernando Abreu